sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Rumo Definido



Carregar a alma sobre duas rodas nem de longe é uma tarefa simples, preciso salientar que da observação interior nasce um novo espirito, recheado, principalmente pela busca e pela aventura.
Justamente na estrada minha velha e cansada alma se despedaçou, parte por parte, de forma a não mais restar um só resquício do que fui, encontrando o caminho para dispor absolutamente tudo, despir-me de tudo, conceitos ideais, ideias, pré-conceitos, definições, afirmações, sendo necessário para isso sair sempre com o coração aberto.
Quantos de nós estariam dispostos verdadeiramente colocar abaixo determinados conceitos pelo qual defendemos e lutamos por toda nossa vida? Quem verdadeiramente estará disposto a colocar um ponto final e recomeçar absolutamente do zero? Teríamos a coragem de confrontar-nos com uma nova existência diferente de tudo que sabemos, que defendemos e imaginamos ser o correto, e do caminho supostamente mais adequado?
Sem à pútrida interferência "poluição" imposta pelo homem ao homem sendo que o único caminho para descobrir-se é o isolamento total e absoluto, assim entrando em contato com seu "EU" verdadeiro sendo que o que mais causa ansiedade talvez seja o fato de descobrir o que, ou quem você realmente é, e se será agradável essa descoberta, quase sempre é lamentável a descoberta de quem você foi.
Pablo Neruda diz:

"Algum dia, em qualquer parte, em qualquer lugar, indefectivelmente, encontrar-te-ás a ti mesmo e essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas."

Esta no entanto, foi uma das verdades mais avaçaladoras em que me deparei apenas precisando entender para qual lado a balança penderia mais.
Não desejo ser prolixo e espero de fato fazer-me entender em determinados momentos, entretanto o relato que seguirá aconteceu em minha volta de São Paulo - SP para Porto Alegre - RS no trecho final da viagem, depois de praticamente 2,300 quilômetros percorridos com uma costela quebrada, em que, após uma queda antes da viagem com minha CB 450cc ano 90 próximo de casa alguns dias antes me fez viajar em um estado físico bastante comprometido.
Havia passado pela cidade de Laguna - SC onde soube que durante aquele fim de semana ocorrera um grande encontro de motociclistas, com shows e muitas atividades, fui visualizando muitos destes que participaram pela estrada chegando então em um paradouro, o Posto 86, já no estado do RS.
Chegando ao paradouro era impossível contar quantas motocicletas estavam paradas lá todas oriundas deste evento na cidade de Laguna, larguei a moto em um canto separado e com dificuldade desci procurando esticar o corpo, naquele momento a cada batimento cardíaco a costela quebrada mostrava que ainda estava ali.
Aproxima-se um rapaz que desprendia-se de seu grupo, em minha direção, indagando-me:
- Ótimo o encontro não?
- Pois é.
- Legal. E a "motinho" aguentou ida e volta foi?

Naquele instante de deboche em que fez uma afirmação em parte pergunta, uma fúria repentina tomou meus olhos após tudo que havia passado para chegar à SP tudo que passei lá além da volta, distância, costela quebrada, frio (mês de agosto), então respondi:

- Aguentou sim, muito bem, mas eu não estava em Laguna.
- Ah é. Está vindo de onde? (com um belo sorriso no rosto quase que como se estivesse confirmando sua previsão de impossibilidade que eu estivesse fazendo uma viagem de 690 quilômetros)
- Estou voltando de SP. Respondi.
- SOZINHO?
- Evidente. Não preciso de mais ninguém, para falar a verdade, poucos me acompanhariam. Afinal não significa o quão rápido pode ir mas sim quanto sofrimento você conseguirá suportar principalmente em lugares onde o dinheiro não possuí valor.
- Difícil existir lugar assim não? (Já com um sorriso constrangido)
- Para muitas pessoas, a maioria, sim, não existe.

El Loco Viajero em "Meus Relatos de Viagem"

Embora um relato bastante simples como esse possa parecer insignificante aos olhos de quem acaba de ler, particularmente considero um dos fatos mais importantes e que definiria até então os rumos de como eu percorreria os mais de 30 mil quilômetros adiantes, devido ao fato de que ainda mesmo que em breves instantes pensava em participar de algum grupo ou moto clube, mas depois de observar que nada havia de trocas para ser feito e que havia muito pouco ou praticamente nada em comum, à partir daquele momento, essa ideia simplesmente desapareceria de vez de meus pensamentos.
Acrescento que o rapaz no qual surgiu este dialogo, montava uma Hayabusa 1300cc passando-se por uma caricatura muito mal feita de piloto de fim de semana, de espírito e coerência inexistentes e superficialidades surpreendentes, me fazendo pensar no instante em que retornava para estrada em um apelido bastante apropriado para essa espécie de motociclistas, "Mosca Varejeira", pois pilotam rápido com pouca  ou nenhuma habilidade, são coloridos por natureza, e possuem vida curta nas estradas, além de serem repugnantes.

“ E me arrastei como tenho feito por toda minha vida... Indo atrás de pessoas que me interessam... Porque os únicos que me interessam são os loucos; os que estão loucos para viver, loucos para falar, que desejam tudo ao mesmo tempo e nunca bocejam ou dizem obviedades, mas queimam, queimam, queimam como fogos de artifício pela noite.”

Jack Kerouac, em "On the Road". 











(Foto 1: Trilha para chegar até o farol Capão da Marca de Fora, Lagoa dos Patos-RS), (Foto 2: Interior do Rio Grande do Sul divisa com o Uruguai, localidade indefinida), (Foto 3: Ponte para trilha dos Canions Itaimbézinho-Cambará do Sul-RS), (Foto 4: Entre Tavares e Mostardas trilha para chegar até a beira da praia isolada, local inexistente), (Foto 5: Farol da Solidão-RS 70 quilômetros de praia deserta, local indefinido), (Foto 6: Região de São Francisco de Paula serra gaúcha, Campos de Cima da Serra), (Foto 7: Lagoa do Peixe-RS sem lembranças), (Foto 8: Molhes de Rio Grande-RS sobre pedras; 4 quilômetros dentro do oceano Atlântico), (Foto 9: Trilha Morro do Farol Ponta do Catalão-SC), (Foto 10: Interior do Uruguai, Tríplice Fronteira; Brasil Uruguai Argentina).



Em se tratando de leitura, um dos melhores livros de aventura que tive a oportunidade de ler nos últimos tempos, Descobridores do Infinito aborda assuntos "proibidos" dos aventureiros e esportistas radicais das mais diversas atividades desde montanhistas, navegadores, alpinistas, pilotos, surfistas de ondas gigantes, praticantes de snowboard, praticantes de basejump, entre outras atividades, falando brevemente de relatos inclusive das grandes explorações Antárticas de 1911.
Este livro recheado de espirito de aventura trata também de temas delicados como o enfrentamento do pior dos medos, a morte, além das crenças e da fé e as motivações destes aventureiros, o que cada um procura encontrar quando aventuram-se em suas atividades.
Ainda salientando que a autora e alpinista Maria Coffey foi a primeira mulher americana a chegar no topo do Everest.
Nas próximas postagens seguirei abrindo minha biblioteca particular e colocando aqui minhas impressões.





quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Estrada e Espírito



O Nosso Infinito

Há ou não um infinito fora de nós? É ou não único, imanente, permanente, esse infinito; necessariamente substancial pois que é infinito, e que, se lhe faltasse a matéria, limitar-se-ia àquilo; necessariamente inteligente, pois que é infinito, e que, se lhe faltasse a inteligência, acabaria ali? Desperta ou não em nós esse infinito a ideia de essência, ao passo que nós não podemos atribuir a nós mesmos senão a ideia de existência? Por outras palavras, não é ele o Absoluto, cujo relativo somos nós? Ao mesmo tempo que fora de nós há um infinito não há outro dentro de nós? Esses dois infinitos (que horroroso plural!) não se sobrepõem um ao outro? Não é o segundo, por assim dizer, subjacente ao primeiro? Não é o seu espelho, o seu reflexo, o seu eco, um abismo concêntrico a outro abismo? Este segundo infinito não é também inteligente? Não pensa? Não ama? Não tem vontade? Se os dois infinitos são inteligentes, cada um deles tem um princípio volante, há um eu no infinito de cima, do mesmo modo que o há no infinito de baixo. O eu de baixo é a alma; o eu de cima é Deus.

Pôr o infinito de baixo em contacto com o infinito de cima, por meio do pensamento, é o que se chama orar.
Não tiremos nada ao espírito humano; é mau suprimir. O que devemos é reformar e transformar. Certas faculdades do homem dirigem-se para o Incógnito, o pensamento, a meditação, a oração. O Incógnito é um oceano. Que é a consciência? É a bússola do Incógnito. O pensamento, a meditação, a oração são tudo grandes irradiações misteriosas. Respeitemo-las. Para onde vão essas majestosas irradiações da alma? Para a sombra, quer dizer, para a luz. 

A grandeza da democracia consiste em não negar, nem renegar nada da humanidade. Ao pé do direito do homem, pelo menos ao lado, há o direito da alma. 
A lei é esmagar os fanatismos e venerar o infinito. Não nos limitemos a prostrar-nos debaixo da árvore da Criação e a contemplar os seus imensos ramos cheios de astros. Temos um dever: trabalhar para a alma humana, defender o mistério contra o milagre, adorar o incompreensível e rejeitar o absurdo, não admitindo em coisas inexplicáveis senão o necessário, tornando sã a crença, tirando as superstições de cima da religião, catando as lagartas de Deus. 

Victor Hugo, em "Os Miseráveis"


"Ás vezes eu gritava perguntas às rochas e às árvores e através dos desfiladeiros, ou cantava como um tirolês. - "O que significa o vazio?" A resposta era o silêncio perfeito, e então eu entendia."

 Jack Kerouac, em "Viajante Solitário"







(Foto 1: Mendoza-Argentina Visualizando à Cordilheira dos Andes), (Foto 2: Lugar Indefinido-sem lembranças), (Foto 3: Litoral Paulista-Ubatuba-SP), (Foto 4: Pré-Cordilheira - Mendoza-Argentina), (Foto 5: Região da Campanha - fronteira Rio Grande do Sul com o Uruguai), (Foto 6: Pré-Cordilheira Mendoza-Argentina)




sábado, 23 de novembro de 2013

Apresentação



Após algum tempo longe de blogs por ter chegado a conclusão que não se parecia mais com o que queria realmente e de fato dizer ou tentar explicar, ainda assim, devo muito ao meu antigo blog Na Rota dos Faróis, onde tentava ali, relatar enfadonhamente algumas aventuras motociclísticas que duraram pouco mais de dois anos.
Foram exatos 40,092 quilômetros percorridos pelo Brasil e pela América do Sul, sobre duas rodas, muitas pessoas conheci neste tempo em que a estrada tornou-se viciante e a motocicleta uma espécie de casa ambulante.
Todo tipo de terrenos foram desbravados desde estradas de pedras, areia sem estradas, rodovias, chuva, frio, neve, sol escaldante entre outras adversidades, todas elas inerentes ao sonho de desbravar o máximo que minhas condições permitissem.
Não tratarei aqui de relatos de bravura e coragem, até porque não foi exatamente isso que encontrei neste tempo em que vaguei sobre duas rodas, tão pouco era o que procurava em minhas jornadas, ao contrário, procurarei tratar aqui justamente das angústias da minha busca pelo auto-conhecimento, descobrimento de meus limites, sobre meus medos (foram muitos) e muitos deles concretizados, deixando-me completamente estupefato.

A fotografia foi uma herança de minha jornada de praticamente dois anos, sendo que desde a adolescência possuía profunda admiração por ela, assim como pela geografia, história e também por motocicletas.
Resolvi por bem não seguir aqui no Dualidade Paralela a ordem cronológica dos fatos e das viagens por acreditar não haver importância nos fragmentos mas sim de uma forma geral, todavia procurarei sempre evidenciar alguma história que possua alguma relevância para o contexto dos fatos, e que sem dúvidas, histórias, são o que não faltam.
No antigo blog Na Rota dos Faróis em que as postagens tornaram-se cansativas e entediantes, permanecerá apenas as músicas e as citações de autores, escritores e poetas que prezo, pois sempre estão comigo em forma de livros, e a música em forma de mp3 nas viagens evidenciando um pouco do que realmente aprecio, e como pensava Friedrich Nietzsche (A vida sem música seria um erro) e também por acreditar que livros não são apenas uma janela para a vida mas sim grandes portas.

Certa vez em um posto de combustíveis, exausto, e completamente mal trajado, com muito barro após 1000 quilômetros percorridos com muita chuva, sabendo ainda haver mais 700 a percorrer, entrei na loja de conveniências para tomar um café gratuito oferecido aos viajantes que abastecem, olhando fixamente uma prateleira de livros que ali estava a venda, evidente, o dinheiro não era suficiente, havia apenas para o essencial, combustível e uma ou outra refeição principal, nada mais.
Fui abordado por um senhor bem apessoado de seus quarenta e poucos anos que perguntou se era minha a moto carregada lá fora, concordei apenas com um aceno de cabeça, ele apresentou-se e logo me perguntou de onde eu estava vindo, respondi que voltava do Rio de Janeiro em direção a Porto Alegre, onde um sorriso começou a brotar-lhe do rosto, perguntando-me quantos quilômetros eu estaria percorrendo, novamente respondi que naquela ocasião, cerca de 3200 ida e volta, assim, obrigou-se a relatar seu antigo sonho, que possuiu uma SR 450cc na década de 90 e que sonhava em viajar naquela moto, mas que no entanto, nunca chegou a pegar nem mesmo uma vez a auto-estrada, que havia lhe faltado a coragem. Perguntou-me também que formação eu possuía, respondi de imediato que não havia tido muitas oportunidades de frequentar a escola, quando sua esposa o chamou apressadamente pois se atrasariam, quando me viu com um sorriso constrangido não sabendo como cumprimentar-me, ainda assim o fez, com um breve "Olá" esticando sua mão delicada, uma mulher muito bonita, elegante e sofisticada pela impressão que tive, assim, com os dois postados diante de mim, a última pergunta surgiu:

- O que você está buscando exatamente?

Um breve, mesmo assim, interminável silêncio instalou-se naquele momento, uma enorme onda de lembranças invadiu meus pensamentos, sendo assim, respondi o óbvio para o momento; Não sei ainda.
Antes de irem perguntaram - me se já havia almoçado, e deixaram o cartão do restaurante que são proprietários na cidade de Itajaí - SC, disseram que como não desviaria meu caminho estava convidado a almoçar ou jantar lá, independentemente do horário que chegasse a cidade.
Não me dirigi até o restaurante, mas eles sem saberem, naquele breve intervalo de tempo, colocaram a pergunta mais importante em meus pensamentos e que me acompanha até hoje:
O que você busca exatamente?


A Desgraça do Sonhador 

E vocês sabem o que é um sonhador, cavalheiros? É um pecado personificado, uma tragédia misteriosa, escura e selvagem, com todos os seus horrores frenéticos, catástrofes, devaneios e fins infelizes... um sonhador é sempre um tipo difícil de pessoa porque ele é enormemente imprevisível: umas vezes muito alegre, às vezes muito triste, às vezes rude, noutras muito compreensivo e enternecedor, num momento um egoísta e noutro capaz dos mais honoráveis sentimentos... não é uma vida assim uma tragédia? Não é isto um pecado, um horror? Não é uma caricatura? E não somos todos mais ou menos sonhadores?

Fiodor Dostoievski, in "Escritos Ocasionais"






(Foto 1: Serra do Rio do Rastro - SC), (Foto 2: Cordilheira dos Andes - Chile), (Foto 3: Imbituba Praia do Porto - SC), (Foto 4: Templos Budista Tibetano -Três Coroas - RS).